Água na concha

Home / Meu Cerebro Na Rede / Água na concha
Mamãe achava lindo criança que falava cedo. Pelo sim, pelo não, todo mundo aqui em casa bebeu água na concha. Deixando de lado as crendices familiares, quando tinha apenas nove meses e já tagarelava, minha prima, exatos nove meses à minha frente, chegou de viagem. Exibiu um vocabulário notadamente mais vasto e uma eloqüência devidamente nove meses superior. Comparei os linguajares, constatei o caráter elementar do meu e travei. Naquela idade, claro, não elucidei a dimensão psicológica da inveja; apenas a somatizei: fiquei gaga. Só reaprendi a falar depois que Raquel foi embora. Desde então, travei em muitas outras ocasiões. Privei-me de possíveis enriquecedores convívios, apenas por não suportá-los. Outro dia, a moça à frente do programa de TV estava simplesmente fantástica. Eu que passava ali fiquei, hipnotizada. Livre de qualquer vestígio de cobiça feminina, não “gaguejei”! Contemplei a sua beleza sem pretensões de propriedade. Não estava procurando nela o que faltava em mim. Não, não desejava ser a beldade. Bastava-me vê-la. Absolutamente despreocupada a meu respeito, simplesmente assisti a um outro ser. Não me doeu, não fez me sentir inferior. Até porque as categorias de melhor e pior demandam comparação… E eu não estava comparando nada! Qual é a grande sacada de sugar toda a excelência do Mundo? Maravilhar-se consigo mesmo? Eu lá quero mais nada pra mim! Não extirpei a competitividade e o despeito. Eles ainda cá estão, disponíveis. Só não mais faz sentido utilizá-los´. Matutando a respeito, encontrei solução para outra antiga tormenta: como ser humilde e me amar ao mesmo tempo? Entre humildade e amor-próprio, ficava sempre com a primeira. Só que ainda tinha de me amar e aí era um sofrer. Nunca engoli essa de saber que somos pequenos e vis e, ainda assim, nos acharmos incrivelmente maravilhosos. Eis o pulo do gato: Jesus disse Amem ao próximo e sejam vocês mesmos! Só que aí de tradução em tradução… Será que fui longe demais? Palavras divinas à parte, não posso amar o que sou, só posso ser o que sou. Se é para não mais julgar, paro por mim. Mereço ou não mereço meu próprio amor? Francamente, há mais com que me ocupar. Independente de como termina o legítimo mandamento, decidi: vou gostar é dos outros. Ufa, problema imaginário a menos!
Related Posts
Showing 6 comments
  • Anônimo

    Oi Lia! Estou conhecendo seu blog hoje, achei bem legal, por que vc não escreve um livro? Tem talento, viu mocinha? Sim, mas vamos ao texto… Eu me identifiquei bastante com ele, pois já passei por altas crises existenciais a respeito de amor-próprio. Depois de muitos devaneios, cheguei à conclusão que é importante para nós nos amarmos, para conseguirmos seguir em frente. Mas esse amor não deve ser confundido com egoísmo, com querer sempre vantagem para si mesmo. Não é isso, acho que se amar é se aceitar, perdoar aqueles defeitos ou erros que nós não conseguimos corrigir em nós mesmos… Uma pessoa que não tem amor por si mesmo sofre sim e muito. Concordo com você que nós devemos ser nós mesmos, mas imagina só se você não se aguenta? Como é que vai conseguir ser você mesmo? Você não consegue, porque você não suporta, aí você acaba perdendo a identidade… É isso mesmo, nós temos mais é que nos amar. Mas e os outros? Vamos amar também o mais que pudermos, sempre.
    Bjinhos da Inês

  • Anônimo

    Minha Amiga Lia,
    gostaria de começar desejando-lhe um ano novo maravilhoso, de muita paz, saúde, realizações e muito, mas muito amor. Independente de quem terá a honra de receber esse amor, ame, viva (tão diferentes na grafia, mas muito semelhantes no significado). Que em 2005 você continue a nos presentear com esses textos simplesmente fantásticos, que só podem ser escritos por alguém simplesmnente fantástica. Viva!!! Ame!!! E deixa a parte de gostar de você por nossa conta.

    Um grande beijo,
    Tchüs!!!

  • Emilia

    Oi, Liazinha 🙂 So passei p dar um alo e deixar um super beijo!!! So discordo da sua conclusao de que nao se deve gostar de si. Acho que as pessoas so se tornam livres p amar ao proximo qd passam a ter um certo amor-proprio. O amor somente ao proximo pode criar uma certa dependencia em relacao ao outro. Nao precisa sair por ai cantando “Eu me amo, nao posso mais viver sem mim” e se tornar um completo egocentrico, mas da p encontrar um equilibrio entre a duas coisas. Beijosss ;**

  • Anônimo

    Tá demorando muito! Preciso de mais posts!!!!
    bjokas
    Fábia

  • Raquel Olivier

    vou pensar duas vezes antes de dar água de chocalho, na casca do ovo, em concha, no escambau hioahioaihoahoiahoi deus me livre e guarde de uma criança falante q nem eu era, digo, q nem eu sou.
    hehehehhehehe

    ass: a própria prima Raquel da história :********

    VEM PRO MARANHÃO CONHECER OS LENÇÓIS SUA ESTUDANTE CDF!!!
    LARGA ISSO EUEHHUEUHE 😉

  • Anônimo

    legal tudo por aqui. mas você anda sumida. beijos. cláudio
    http://www.chfbinconcert.blogger.com.br

Leave a Comment