Primeiro Encontro

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Hoje a morte me olhou firme nos olhos
E eu a conheci:

Profunda, serena, digna
Então a morte, percebendo-se notada, sustentou o olhar
Esboçou um sorriso desajeitado
E me apresentou sua força
Após um tempo que pareceu infinito
Agradeceu a reverência
– Obrigada!
– Obrigada por que, se não fiz nada?
– Porque você sabe que vou morrer!

Passei a mão por seu braço frio e deixei a enfermaria

Dona Marina morreu minutos depois

Quarenta e dois anos
Seis filhos
Neoplasia gástrica com metástases hepáticas e pulmonares

Derradeira lição em nosso primeiro encontro
Generosos últimos instantes que me transportaram para a simplicidade da morte

 

Lia Sanders
Lia Sanders
Formada em Medicina pela UFC, com doutorado em Neurociência Cognitiva / Psicologia pela Humboldt Universität zu Berlin, Lia Sanders é também escritora e artista plástica autodidata. Atualmente, divide-se entre psiquiatria, literatura e artes plásticas.
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Mostrando 8 comentários
  • Sassa

    Fiquei muito tocada com teu texto… na verdade passei horas pensando no que comentar, numa coisa esperta ou confortadora pra te dizer, mas não me veio nada que fosse tão significativo quanto as suas palavras… Essa é a parte dura de ser médico. Espero q essa sua sensibilidade nunca se vá e q vc não se acostume nunca a ponto de achar a morte banal ou sem significado. Espero por nós duas…

  • Anônimo

    Mais do que seu texto, o que realmente me tocou foi sua sensibilidade diante de uma situação que nos encontrará cedo ou tarde. Um grande abraço e fique bem.

  • Anônimo

    Fiquei até sem palavras.. Normalmente não tenho muita paciência pra comentar, mas dessa vez não resisti.. mesmo sem ter o q dizer..
    Que essa sua sensibilidade permaneça sempre tão aguçada.. é isso que pode fazer de nós médicos de almas, não somente médicos de corpos..
    Ah, aproveito p dizer é por exatamente por causa dela que adoro ler seus textos..
    Bjinho da Manuzinha ;*

  • JP

    Lia, muito lindo o que vc escreveu. Sério, fiquei impressionado mais uma vez com você, com sua visão humanista e com o seu bom coração. Pensei nesse seu post o maior tempão, me tocou muito.

  • Anônimo

    Lia,
    quando li seu texto fiquei com vontade de comentar mas não sabia o que dizer. Só sei que vc mais uma vez demonstra ser uma pessoa especial. Que essa sua capacidade de ver as pessoas com tanta sensibilidade nunca se perca…
    Um abraço,
    Daniel Coelho
    Ah, cuidado com o North Shopping…

  • Anônimo

    Amiga, na minha rotina básica de ler seu Blog sempre, me vi em mais esse texto seu. E aí vêm todas as reflexões sobre a morte que andam pairando sobre minha cabeça nesses dias.
    As palavras simples, o ritmo correto, a sensibilidade perfeita, a falta de rimas proposital e a imensidão da sua percepção….
    Brigada pelo texto e por intervir tão fortemente nas minhas reflexões da forma correta (?).
    Amo voce, irmazinha.
    Fábia

  • Anônimo

    Amiga, na minha rotina básica de ler seu Blog sempre, me vi em mais esse texto seu. E aí vêm todas as reflexões sobre a morte que andam pairando sobre minha cabeça nesses dias.
    As palavras simples, o ritmo correto, a sensibilidade perfeita, a falta de rimas proposital e a imensidão da sua percepção….
    Brigada pelo texto e por intervir tão fortemente nas minhas reflexões da forma correta (?).
    Amo voce, irmazinha.
    Fábia

  • Anônimo

    Lia,
    Que belo poema. Sensibilidade aguçada. A morte idealmente deveria ser encarada com a tranquilidade de seu poema, mas “a indesejada das gentes” é o mistério, o questionamente n°1 dos pobres humanos e está pra nascer aquele que esteja preparado para ter com ela. Sorte sua ter tido contato tão dígno e tranquilo.
    A consciência de nossa própria morte, diferentemente dos demais animais, é o que realmente nos torna humanos, daí padecemos da angústia essencial, irremedivelmente líquida e certa. Mas a morte tem diversas faces, há a que nos revolta, perda de uma criança por desnutrição, o português que morreu sem saber com um estúpido tiro na testa… Há a que nos corta a carne, perder alguém que nos é precioso, essa realmente é diferente das demais. Seu “Primeiro Encontro” foi marcante, reflete uma experiência, uma das infinitas formas de nos depararmos com nossa finitude, nosso destino e nossa pequenez.
    Cordialmente, Flavio Sidou

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